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À procura da morte! (?)

Por Sandra Valente

“Mas foi ele quem procurou…”, foi o que se ouviu, de algumas pessoas quando se soube do assassinato dele (adolescente de 15 anos) num quarto-cela de um Centro de internação provisória, em cumprimento de medida sócio educativa, por conflito ocorrido no abrigo onde estava sob medida protetiva.

Será mesmo que ele procurou? Se pensarmos de forma imediata, podemos até dizer que sim.

Era muito provocador, ousado, irritava a todos e se fazia de valente. Falava gritando, acusava a todos, ameaçava, enfim, era do tipo, como se diz na gíria “rebarbado. Pobre, filho de mãe falecida e pai desconhecido, ficou sob a responsabilidade de parentes, mas ninguém mais o quis quando alcançou adolescência, pelo fato de gostar muito de ficar na rua e por se envolver como uso e tráfico de drogas, com furtos, assaltos e ameaça de morte por traficantes.

Por um breve período, no abrigo, até mudou seu comportamento, se mostrou mais ameno, menos ameaçador, não evadiu, ficou sem usar drogas e mais responsável; porque estava na expectativa de ser acolhido por uma tia em uma cidade do interior. Mas, como a resposta demorou e a influência dos colegas, aliada ao vício falou mais alto e voltou a ser “rebardabo”.

E sua valentia e audácia, junto a outros adolescentes, em querer tomar a arma do vigilante e outros atos infracionais os levaram à custódia, à espera de uma audiência, por 45 dias. Ao sair de lá, corria com os braços abertos, pelo abrigo, gritando liberdade…, liberdade… Mas, por conta de outro conflito e briga com ameaça de morte, ele e os demais retornaram à custódia e perderam novamente e dita “liberdade”. Mas ele, não vai ter a possibilidade de correr mais pelo abrigo, como um pássaro voando de asas abertas e gritar por liberdade, porque sua vida lhe foi tirada por um acompanhante do quarto-cela.

Para ele estar fora do quarto-cela significava estar livre, pois não tinha a noção de sua prisão social, do aprisionamento no mundo das drogas que acaba com a vida de muitos e enriquece outros. Não tinha consciência de que vivia na cela da cidadania, onde seus direitos fundamentais não foram garantidos como propaga a Constituição Federal, o ECA, o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária, enfim, “como está no papel”.

Negando toda a conjuntura social e de forma imediata, os que lidaram com ele cotidianamente podem até dizer: “mas foi ele quem procurou”. Mas que bom, que ao mesmo tempo, tivemos servidores que lamentaram e choraram sua morte; os que ficaram perplexos, tristes e com a sensação de impotência. Ao mesmo tempo em que nos perguntamos o que estamos fazendo e para que serve nosso trabalho.

Enfim, perdemos mais um adolescente, aliás, o segundo em pouco mais de três meses. Tomara que isto sirva para nos fortalecer na reflexão crítica desse sistema social e político corrupto que desvia de forma descarada os recursos financeiros das políticas públicas e deixa nossas crianças e adolescentes a mercê de toda mazela social, sem opção de um caminho de liberdade e, pior ainda, passam a ser culpados por serem vitimados.

Tomara que nos sirva para rever nossa prática profissional, nosso espírito de reivindicação e cobrança junto aos gestores e políticos, a fim de darmos a nossas crianças e adolescentes a real liberdade, fora da cela social.

Sandra Valente é assistente social.

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