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Edward Said

Por Vladimir Safatle

Há algumas semanas, completaram-se dez anos da morte de Edward Said [em 25 de setembro]. Um dos críticos literários mais originais de sua geração, Said foi um dos poucos autores das últimas décadas capazes não apenas de discutir, ao mesmo tempo e com rigor, arte e questões políticas contemporâneas. Ele era um dos poucos a pensar esteticamente a política, ou seja, compreender como a experiência estética era capaz de induzir novas sensibilidades no campo do político.

Por exemplo, seu último livro, “Estilo Tardio”, fornece uma leitura original a respeito de um conceito estético desenvolvido por Theodor Adorno para descrever as últimas obras de Beethoven. Em um texto de juventude, Adorno expunha a linguagem musical das últimas sonatas e quartetos de Beethoven como uma experiência limite na qual princípios de organização e de unidade estilística até então respeitados eram radicalmente questionados.

Assim, o estilo tardio não aparecia como um gesto de maturação da linguagem em sua força de ordenação, mas como um flerte com o que poderia desagregá-la. Flerte que era a verdadeira prova de maturidade, pois só as obras realmente seguras podem trazer para dentro de si o que parece negá-las, transformando tal convivência com a heterogeneidade em potência criadora.

Porém havia mais do que reflexão sobre arte nessa discussão. Um pouco antes da publicação de seu último livro, Said proferira uma impressionante palestra sobre “Moisés e o Monoteísmo”, texto no qual Freud elabora uma teoria a respeito da filiação e da fundação da nacionalidade. Intitulada “Freud e os não europeus”, ela explora o sentido político da ideia do psicanalista a respeito de Moisés.

Said centra-se no fato de não haver para Freud apenas um Moisés, mas dois. O primeiro seria egípcio, assassinado pelo próprio povo judeu em momento de desespero e cujo lugar seria posteriormente ocupado por outro Moisés, um midianita. Nessa figura do duplo Moisés, no qual o esquecimento do primeiro volta como sintoma a assombrar os vivos, Said encontrara a saga de uma identidade nacional que traz em seu bojo um corpo não idêntico, que porta as marcas indeléveis do heterogêneo. Como se, na origem, houvesse sempre algo a desestabilizar a ordem que apela à identidade originária.

Assim, o texto de Sigmund Freud aparece como o fundamento de uma política pós-identitária, ou como a versão política da ordem do estilo tardio. Política que muitos veem como atualmente impossível. Talvez porque eles nunca deixaram que sua sensibilidade fosse transformada pela nossa experiência estética mais corajosa.

VLADIMIR SAFATLE

Fonte: Folha

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