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História | Os bondes de Belém

17 de janeiro de 2015

Em 2004, o então prefeito Edmilson Rodrigues decidiu reintroduzir o bonde com as mesmas características históricas do século passado para  resgatar parte da história de Belém e também de incentivar o turismo e o lazer, a exemplo de outras capitais.

O bonde fazia parte de um projeto mais amplo denominado “Via dos Mercadores”, que previa intervenções nas calçadas, no piso da via, implantação de bancos e lixeiras, nova iluminação das ruas e fachadas dos prédios, quiosques padronizados para os ambulantes, pontos de táxi e postos de informações turísticas, que visava organizar o centro comercial, incentivar o turismo e manter a atividade laboral dos ambulantes, promovendo inclusão social e resgatando o patrimônio físico e cultural da cidade.

Reproduzimos abaixo o artigo de Allen Morrison publicado em seu blog “Urban Transport in Latin America” e em seu livro “The Tramways of Brazil” que resgata a história dos bondes na cidade de Belém.

BELÉM: OS ANTIGOS TRENS E A NOVA LINHA

A primeira estrada de ferro de rua em Belém foi construída em 1869 pelo cônsul dos Estados Unidos para o Pará, James B. Bond. A linha começava na Catedral e ia para o leste ao longo Rua Pedro Rayol (Rua Padre Champagnat hoje) e Ruas João Alfredo e Santo Antônio. Em seguida, ao sudeste ao longo da Av. 15 de Agosto (Pres. Vargas hoje) e Av. Nazaré (Nazaré) ao Largo de Nazareth (Praça Justo Chermont). Esta foi também a rota do primeiro bonde elétrico de Belém em 1907.

A largura dos trilhos (bitola) em 1869 era de 1435 milímetros, estabelecida pelo Jardim Botânico Rail Road, no Rio de Janeiro no ano anterior, e os primeiros bondes eram puxados por pequenas locomotivas a vapor. A linha foi estendida em 1871 para São Brás, onde a foto abaixo foi tirada [col. AM]:

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Mulas começaram a puxar os bondes ao longo da mesma rota em 1870 e a operação a vapor terminou em 1894. Aqui é Rua João Alfredo cerca de 1900 [cartão, col. AM]:

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Além da linha de largura 1435 mm, outra linha de tração animal, de 750 milímetros de calibre, foi desenvolvida na década de 1870. A vista do cartão postal abaixo mostra os dois bondes aproximadamente em 1905 em seus terminais, na Praça do Relógio – no cruzamento da Av. 16 de Novembro (Av. Portugal) e Rua João Alfredo. Note-se que tanto a linha de 750 milímetros à esquerda e a 1435 mm à direita utilizavam os mesmos tipos de carros construídos nos Estados Unidos. [col. AM]:

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Siemens & Halske instalaram a iluminação pública elétrica em Belém em 1894, e uma empresa inglesa, Pará Electric Railways & Lighting Co., abriu uma linha para o bonde elétrico com 1.435 milímetros de largura em 15 de agosto de 1907. A primeira linha seguiu o mesmo caminho do bonde a vapor de 1869, exceto que os carros entravam a oeste na Rua Senador Manuel Barata e a leste na João Alfredo. Abaixo, uma grande fotografia da construção da linha férrea na Rua João Alfredo, em 1907.

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O terminal da nova linha elétrica era na Av. 16 de Novembro, na Praça Dom Pedro II, ao lado da Praça do Relógio mostrado na foto acima. O cartão abaixo, feito logo após a inauguração, mostra um bonde elétrico prestes a virar à direita para na Rua João Alfredo [col. AM]:

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Aqui está uma visão da Rua João Alfredo, logo após o bonde elétrico entrar na rua, a partir Av. 16 de Novembro. O fotógrafo está olhando ao leste. Note as linhas para transporte animal abandonadas, de ambos os tamanhos, em primeiro plano. A estrutura de três andares na esquerda é do Hotel América. Uma linha de bonde completamente nova foi construída ao longo desta mesma rua em 2004 [col. AM]:

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Por um tempo, alguns dos novos bondes elétricos puxaram os velhos bondes anteriormente puxados por mulas, como reboques. A fotografia abaixo, que foi reproduzida em uma revista inglesa, foi feita na Av. 15 de Agosto, hoje Av. Presidente Vargas. [ Tramway & Railway Mundial, Londres, 04 de março de 1909, p. 167]:

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Com o sistema elétrico expandido, mais faixas foram colocadas na Av. 16 de Novembro e o trilhos de bondes movidos a mulas foram retirados. No cartão abaixo, a Rua João Alfredo é pouco visível no lado esquerdo. Aquele é o Hotel América, atrás do quiosque [col. AM]:

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O cartão abaixo mostra uma vista aérea deste mesmo ponto da Av. 16 de Novembro, com a Praça Dom Pedro II à direita. O fotógrafo estava provavelmente no telhado do Hotel América [col. AM]:

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Praça do Relógio, Av. 16 de Novembro, Rua João Alfredo e Praça Dom Pedro II – este é um panorama de 1930 dos lugares onde algumas das fotografias anteriores foram tomadas. Este é o Hotel América por trás dos bondes à esquerda [col. AM]:

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A visão 1940 abaixo é ao sul na Av. 15 de Agosto – chamada Av. Presidente Vargas hoje – algumas quadras abaixo da sua interseção com a Rua Santo Antônio [col. AM]:

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A última fotografia é datada de 28 de fevereiro de 1946. O bonde é uma reconstrução de um dos 20 grandes carros que a Pará Electric importou de segunda mão de Cardiff, País de Gales, em 1940. O sistema de bondes elétricos de Belém foi fechado no sábado, 27 de abril de 1947, menos de 40 anos após a sua inauguração [Charles S. Small]:

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Em 2002, a Prefeitura de Belém decidiu restaurar as ruas históricas e edifícios antigos na zona portuária da cidade e deu início a um projeto chamado “Via dos Mercadores”. Uma estrada de ferro de rua era parte do renascimento e, inspirado pelo sucesso da linha de bonde em Santos. A busca de um veículo começou.

Vinte toneladas de trilho chegaram às docas de Belém, em Maio de 2004 e 1,985 km de trilhos foram colocados ao longo da Rua João Alfredo, Praça Dom Pedro II, passando pela Catedral, através da Feira do Açaí, e em torno de uma fortaleza na Baía do Guajará. O fio aéreo foi trazido do sistema de trólebus em Santos. A fotografia abaixo, tirada em setembro de 2004, mostra a construção ao longo do lado sul da Praça Dom Pedro II. Essa é a Prefeitura Municipal à direita [Alexandre Pollastrini]:

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Um antigo bonde Campinas foi localizado em um parque em Louveira, a 20 km ao sul de Campinas (SP), onde estava desde que o sistema fora fechado na cidade em 1968. Uma empresa de Santos chamada Clinimaq renovou o veículo e instalou equipamentos elétricos a partir do trem Santos eléctrico 38, que atualmente opera com um motor a gasolina no Memorial do Imigrante, em São Paulo. O carro 110 foi fotografado em Santos no dia 8 de setembro de 2004, logo antes de sua partida para Belém [Sergio Martire]:

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O bonde 110 deixou Santos no dia seguinte, viajou 3,005 km por estrada através do Brasil central e norte, e chegou em Belém em 16 de Setembro de 2004. A foto abaixo mostra o carro escoltado pelas ruas de Belém – o primeiro bonde visto na cidade em 57 anos! [Celso Bizerra]:

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Esta é uma outra visão do bonde 110 em sua carreta. Esta é a Av. Magalhães Barata, anteriormente chamada Av. Independência, onde os bondes tinham funcionado nos trilhos muitos anos antes [Celso Bizerra]:

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O bonde 110 finalmente chegou à Feira do Açaí, onde foi descarregado em uma seção dos novos trilhos. O fio aéreo foi temporariamente removido desta seção [Celso Bizerra]:

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Finalmente, o grande momento havia chegado. Em 4 de outubro de 2004, o bonde 110 foi tirado da carreta que o tinha trazido de Santos e colocado sobre o trilho do bonde, onde ele ia começar uma nova vida em Belém [Celso Bizerra]:

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Na madrugada do dia seguinte, sob seus trilhos, o carro 110 espera na beira da baía de Guajará [Celso Bizerra]:

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Na quarta-feira, 06 de outubro, a força foi ligada e o bonde 110 começou a ser testado em um pequeno trecho dos trilhos [Celso Bizerra]:

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A construção da linha foi concluída em dezembro, e o prefeito Edmilson Rodrigues circulou no bonde em uma inauguração formal no último dia de 2004, o seu último dia no cargo. A placa abaixo, montado sobre a porta da estação, homenageia seu avô, Gumercindo Rodriguez, que era um motorneiro no sistema de bondes original da cidade [Ricardo Barbalho]:

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Aqui está uma visão crepúsculo da “Estação” no canto sudeste da Praça Dom Pedro II. Estas fotografias foram tiradas no dia de Ano Novo de 2005, no alvorecer de uma nova era de bondes em Belém [Ricardo Barbalho]:

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Infelizmente, a nova era não começou bem. O novo governo que tomou posse em 2005 tinha outras prioridades e a operação comercial da linha foi adiada. Também houve problemas com os sinais de trânsito e reclamações sobre os fios em frente à catedral. Os engenheiros da Clinimaq em Santos voltaram a Belém e encurtaram o percurso do bonde (pelo menos temporariamente). O público foi finalmente convidado a fazer um passeio na quinta-feira, 18 de Agosto de 2005. Foi a primeira vez em 58 anos que se podia andar de bonde, no estado do Pará [Celso Bizerra e Rogerio Nascimento]:

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Mas, mais uma vez, o bonde operou apenas um dia. E não funcionou novamente por dois anos! Finalmente, em 2007, a rota foi restaurada ao seu tamanho original – mas desta vez sem fios aéreos que foi equipado com um motor a gasolina. A linha recebeu a sua terceira inauguração formal, na sexta-feira 12 de outubro de 2007. Ele começou a transportar passageiros de novo no domingo seguinte. . .

Nota da editora: O projeto de revitalização do Centro Histórico de Belém foi abandonado pelas gestões que sucederam na prefeitura da cidade.

 

Fonte: Urban Transport in Latin America de Allen Morrison

Tradução: Assessoria do deputado Edmilson Rodrigues

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