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Ministro da Educação compara professor a animal a ser caçado

Realmente nós temos um ministro da Educação sem as devidas qualificações para o cargo. Depois de acusar as universidades de fazer balbúrdia e de afirmar que dentro da UnB havia plantação de maconha gigantesca, em debate com o setor privado, o ministro nos comparou a um animal a ser caçado”, afirma o professor Luiz Araújo. As declarações absurdas de Abraham Weintraub, foram feitas durante a abertura do Fórum Nacional do Ensino Superior, em São Paulo, nesta quinta-feira (26). Confira o texto:

Disse: Tenho que ir atrás de outros ganhos mais importantes, da zebra mais gorda que é o professor que tem dedicação exclusiva de oito horas de aulas diárias e ganha de R$ 15 a R$ 20 mil por mês. São 300 mil professores.

Mas, mesmo profundamente indignado (espero que todos também fiquem!) com o tratamento que estamos recebendo da principal autoridade da área educacional do país, é muito importante refletir sobre o sentido da frase e as consequências dela. Vejamos:

Em audiência pública realizada numa comissão da Câmara o ministro afirmou que a proporção professor/aluno nas federais seria 1 docente para cada 12 alunos e nas privadas seria de 1 para 40, o que comprovaria a ineficiência das universidades. Esta informação é mentirosa, desmentida pelos próprios dados do INEP, em 2017 a proporção nas federais era de 11 e nas privadas de 14,4.

Na mesma audiência chegou a dizer que a folha de pagamento das federais teria crescido 8% acima da inflação, outra afirmação mentirosa. Dados do SIOP que sistematizei, demonstram que na última década tivemos um crescimento real de 3,42% e isso está diretamente ligado ao crescimento de matrículas.

Em requerimento de informação solicitado pelo deputado Ivan Valente (PSOL/SP) foi descoberto que nenhuma área do Ministério da Economia foi sequer consultada sobre o teor do Programa Future-se, mesmo que o principal fundamento dele seja redirecionar recursos públicos e patrimônios das instituições para um fundo. Ou seja, até o seu principal programa não tem base cientifica ou estudos de viabilidade. Pura propaganda para justificar a redução de verbas de forma progressiva.

Agora, por que é tão importante a ofensa de hoje? Por que dois caminhos têm sido discutidos no governo para reduzir os gastos públicos com as universidades: reduzir o peso da folha de pagamento ou cobrar mensalidades. Ou as duas combinadas.

Tenho escrito aqui que, após cortar ao extremo as verbas com custeio e investimentos, o próximo alvo seriam nossos salários. O primeiro ataque já aconteceu, com a reforma da previdência, que aumentará as alíquotas de contribuição e dificultará ainda mais as aposentadorias futuras.
Agora, com a comparação de hoje, o ministro anuncia pelo menos dois tipos de ataque:

Agora, com a comparação de hoje, o ministro anuncia pelo menos dois tipos de ataque:

1.Aumentar a carga horária de trabalho docente, diminuindo o tempo destinado a pesquisa e extensão, criando assim um excedente de pessoal que pode ser usado para não promover mais concursos ou propor plano de demissão voluntária.

2.Mudar o regime de trabalho, acabando com novas contratações em regime de dedicação exclusiva e abandonando o concurso e usando o regime celetista, facilitando inclusive a dispensa dos contratados.

Tem gente (pouca, felizmente) que anda frequentando os gabinetes do ministro, sonhando com a possibilidade de assumir a reitoria (ou pelo menos uma assessoria do indicado). Os que agem desta forma são coniventes com os ataques que estão sendo feitos e os que foram hoje anunciados. Talvez tal postura os salve, quem sabe algum até ganhe muito dinheiro, mas certamente os mais de 2000 docentes perderão muito e, com isso, perderá a nossa universidade e a comunidade que justifica a sua existência.

No dia 2 e 3 de outubro todas as universidades federais vão parar. Em defesa da educação pública. Em defesa da autonomia das universidades. E em defesa de nossos salários.

Se os cortes de recursos e de bolsas, os ataques a liberdade de cátedra e o programa future-se não foram suficientes para convencer alguns colegas da importância de participação, hoje o ministro deu uma mãozinha, deixando nítida sua intenção de mexer com nossos “altos” salários.

Luiz Araujo é Professor da Faculdade de Educação da UnB

Foto: Shismenia / MEC / Divulgação

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