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Grãos de Maria: Espaço Cultural fará exposição de obras de Edmilson Rodrigues

Por Renato Torres

No próximo dia 10 de Julho, o Espaço 310 será inaugurado e realizará uma exposição com algumas obras de Edmilson Rodrigues. O texto de apresentação é do músico e poeta Renato Torres.

Grãos de Maria

Belém, esta cidade insular do Norte brasileiro, traz em sua iconografia múltiplas texturas, de ascendências indígenas, negras e lusitanas a seus muitos signos culturais largamente reconhecidos, alguns utilizados aos extremos do estereótipo, outros com indisfarçável tom nativista e ufanista. Há, contudo, um signo comum, muitas vezes ofuscado pela onipresença sociocultural do Círio de Nazaré, mas que subjaz a esta celebração de fé como a quase tudo o que diz respeito ao modo de ser amazônico; este signo é o da Mulher do Norte.

São esses grãos de muitas Marias que se podem recolher (plantar, regar) nas imagens produzidas de forma surpreendentemente prolífica pelas mãos de um de nossos homens públicos mais notórios.

A cidade é morena, já se disse e repetiu muitas vezes, mas não somente. A cidade é mestiça, e traz na extensão de seu nome as suas muitas direções significantes: Santa Maria de Belém do Grão Pará – a um só tempo a Mãe de Deus, consagrada na maior procissão católica do mundo, a Maria do povo simples, ribeirinho, interiorano e imigrante, a Mulher representativa do poder e pujança do Estado, a Mulher Amazônica, a Mãe Natureza, a Mãe D’Água Grande. Seus muitos grãos referentes dão-se ao grelo de múltiplas espécies de representatividades femininas que formam o todo da Cultura e das vivências cotidianas da cidade de Belém, e do Estado do Pará, com seus muitos municípios e localidades, regidos pelo princípio frutificador e agregador do Matriarcado (ou pelo menos do que ainda se pode reconhecer dele, sob os escombros opressivos do patriarcado oligárquico).

São esses grãos de muitas Marias que se podem recolher (plantar, regar) nas imagens produzidas de forma surpreendentemente prolífica pelas mãos de um de nossos homens públicos mais notórios. Edmilson Rodrigues prova que não apenas de palavras se faz um discurso político, enquanto reúne em ramalhetes de linhas e cores vibrantes, tapeçaria cosida entre técnicas diversas de desenho e pintura que atravessam materiais tão cotidianos como o lápis-grafite, a caneta esferográfica e o lápis-de-cor, até atingirem a especificidade da acrílica, e do pigmento automotivo, tantos rostos femininos entronizados em seu imaginário, como relembrasse a cada recorte de papel desenhado a paisagem de uma personagem de sonho. Para tanto, se vale dos papéis que estão à mão, tornando as brechas de sua rotina de trabalho o seu ateliê permanente – também granulado – realizando agora, ao expor seus fragmentos produzidos ao longo dos anos, um mosaico impressionante e inesperado de suas visões do feminino, ora revisto sob o escopo das lutas contemporâneas imprescindíveis.

Renato Torres
Músico, poeta e arte-educador

Serviço: 10 de julho de 2019. De 17 às 22 horas. Para consultar os demais dias e horários de funcionamento, acesse o perfil do Espaço 310 no instagram (@espaco_310)

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